terça-feira, 8 de julho de 2025

Resíduos

Cartuxa - personagem principal
Nascido em Portugal, no ano de 2005, vermelho escuro, ficou armazenado por 5 anos, mantendo-se curioso, criativo, falante e espontâneo, além de possuir um aroma enlouquecedor. Quando conseguiu respirar, entregou-se ao seu destino, apesar dos resíduos.
RESÍDUOS
Dezessete graus centígrados é o que revela o termômetro próximo ao meu guardião, que por 5 anos me envolve, com seu corpo reto, ombros bem definidos e textura translúcida que me permite observar o lugar em que vivo.
Um quarto compacto, com umidade controlada, cheio de prateleiras de madeira pura, criteriosamente distribuídas no espaço e moldadas com cortes arredondados, cujos formatos são de encaixe perfeito para as dezenas de guardiões se deitarem e assim permanecerem imóveis, condenando à mesma situação os seus envolvidos.
Tais guardiões possuem na ponta de seu pescoço um tampão esquisito, chamado rolha, resistente e difícil de remover. Perdi as contas das tentativas de diálogo para que me deixasse sair. Ufa! e os empurrões? Nenhum resultado. Nada acontecia! Agora, curioso mesmo era uma espécie de caroço que o guardião possuía no fundo. Para que serve? Qual a utilidade? Que curiosidade?
Crrrrrrrrr!!! Eita! O som da porta rompe o silêncio. Alguém está entrando. É o proprietário do lugar. Um senhor alto, esguio, cabelos brancos, expressão séria, olhar atento. Há um tempo ouvi alguém o chamar de Orlando.
Orlando nos observa, e num ritual de espantar se aproxima das prateleiras, retira alguns guardiões do lugar e os ergue a uma certa altura. Em seguida lê as mensagens grudadas em seus corpos, os rótulos, que trazem informações nossas, os envolvidos, ou como nos costumam chamar, vinho. Em seguida, desaparece com o escolhido.
Sobre mim, o verso do meu rótulo revela que sou português, filho de três uvas, cor vermelho escuro, teor alcoólico de 14%, o que quer dizer que sou curioso, criativo, falante, espontâneo e com muita ciência do sex appeal, além do meu nome. Chamo-me Cartuxa, nascido em 2005.
Epa! Orlando se aproxima de mim! Será que é a minha vez!!!  Será que, finalmente, sairei daqui? Vejo mãos ao redor do meu guardião. Como é bom experimentar outras posições além da horizontal. Eita! o meu rótulo. Orlando está lendo minhas informações: sou Cartuxa, nasci em 2005, não aguento mais ficar por aqui. Sou curioso, criativo, falante, espontâneo e ciente do sex appeal! Desespero-me: ELE ME ESCOLHEU! ELE ME ESCOLHEU! VOU SAIR! VOU SAIR!
Não quero perder nenhum detalhe! Quanta curiosidade, mas uma insiste em me comandar: para que serve aquele caroço no fundo dos guardiões. Ahhh!! lentamente, preso às mãos do Orlando, observo ficar para trás o lugar em que vivi. Adeus prateleiras, adeus baratas e aranhas. Chegou a minha vez. Uma porta se fecha atrás de nós. Abre-se um mundo!
Que lugar claro! Que lugar colorido! Que lugar diferente! Orlando nos acomoda numa mesa posta com requinte. Uma outra pessoa coloca junto ao meu guardião uns copos esquisitos, com pés altos, finos e bocas largas como sorrisos abertos.
Duas visitas se sentam junto à mesa. Orlando maneja um metal esquisito, pega o meu guardião entre as mãos, aperta-lhe o pescoço e encaixa o esquisito metal no gargalo. Aos poucos a rolha que por tanto tempo me prendeu vai saindo. Ufa!! eu não conseguia acreditar. Enfim, livre!!!!
Fiquei tão, mas tão feliz que contaminei todo o lugar com meu aroma, só de um sopro, um sopro de alívio, um sopro de liberdade, um sopro só por respirar.
Ah! Os olhares de encanto de Orlando e de suas visitas me embalam. Sigo respirando, respirando. De repente vou me desgrudando de meu guardião. Divido-me entre os tais estranhos copos. Naquele momento, senti-me pleno ao ser conduzido pelo destino e no compasso de risos e conversas, deleito-me em mergulhos no corpo humano.
Ah!!! E numa espécie de rompante, volta a curiosidade: para que serve aquele caroço no fundo dos guardiões? Dentre as várias informações, uma me chamou atenção: acúmulo dos resíduos. Resíduos. Resíduos do que antes eu fui...
Adriane Morais

6 comentários:

  1. Uma coisa é certa, vou ter o prazer de fazer o primeiro comentário no seu blog NOVINHO e também ser o primeiro seguidor do seu blog. Seja bem vinda blogueira. Quanto ao seu Reíduos ... se como disse está apenas começando, imagenem o que vem por aí. Um abraço e boa sorte.

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  2. comove-me, ao contrário, seu egoísmo por manter, por tanto tempo, seu talento de cronista para si própria, sem dividi-lo com quem gosta do que é bom. parabéns, menina. fico ansioso por coisas novas que enfeitarão esse blog, já um dos meus favoritos. xêro,

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  3. Minha amiga, amei RESÍDUOS, é muita criatividade, muita imaginação. Estou ansiosa por novos textos.

    Parabéns.
    Silvana

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  4. Adorei a história! Nunca imaginei que um vinho pudesse contar sua história.
    Uauuuu! Já fiquei imaginando as imagens!
    Estou impressionada!

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  5. Quando o vinho fala. E fala com propriedade. In vino veritas.
    Saúde e paz!

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  6. Quando o vinho fala. E fala com propriedade. In vino veritas.
    Saúde e paz!

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